Resenha: Tocando a Distância - Ian Curtis e Joy Division, por Deborah Curtis


Nunca fui muito fã de livros biográficos, mas é inevitável ter interesse por aqueles cujos artistas gostamos muito. Tocando a Distância, sobre o vocalista Ian Curtis do Joy Division foi um desses. Comprei no site da Ideal Shop junto com duas regatas, aproveitando uma promoção em que o livro saiu por pouco mais de vinte reais. E nossa, foi uma ótima compra. 

O livro é escrito por Deborah Curtis, viúva de Ian, e passa por várias fases de sua vida: infância, adolescência, o próprio casamento com Deborah, a descoberta de que tinha epilepsia, os shows, o nascimento de sua única filha, um relacionamento extraconjugal e enfim o suicídio, aos vinte e três anos de idade. 

Apesar do status biográfico que o livro possui, na maior parte das vezes soa mais como um desabafo - o que não o torna ruim, claro. Por ter conhecido Ian apenas na adolescência, os relatos sobre a sua infância e mesmo o início da puberdade são mais rasos e rápidos. Por longas páginas acompanhamos a história de Ian com sua esposa, o início do namoro, o casamento, o nascimento da filha Natallie, a descoberta da epilepsia e os limites que ela trouxe para a vida dele e deles como casal, o nascimento do Joy Division e informações sobre o processo de composição dos álbuns. Com caráter extremamente pessoal, Deborah expõe os fatos da vida ao lado de Ian, sua personalidade caótica, seu ciúmes extremo, a perda do amor e a traição por parte dele. Em grande parte da narrativa é possível sentir a angústia e a tristeza dela, espreitando sob os fatos contados. É o ponto de vista dela, e foi exatamente isso que me fez gostar do livro - a desmistificação de Ian Curtis através de fatos banais e cotidianos contados por alguém que de fato viveu ao lado dele. Com frequência vemos ídolos sendo despersonalizados, e o livro anda na contramão à esse fato: é o resgate do verdadeiro Ian Curtis, fora dos palcos, fora da mídia, com todas as perturbações que ainda assim não impediram o Joy de se tornar um fenômeno mundial, idolatrado até hoje - mais de trinta e cinco anos após a morte do vocalista. Mesclado à essa narrativa, encontramos relatos de amigos e pessoas próximas de Ian também. 

Não sou uma pessoa muito adepta à idolatria, e já comentei isso algumas vezes nesse blog. Óbvio que tenho minhas bandas preferidas e tudo mais, mas não enlouqueço por nada - geralmente meu interesse se restringe a música e não adentra o âmbito pessoal. Além desse livro sobre o Ian, só me recordo de ter lido o do Renato Russo e a autobiografia do Marilyn Manson - essa última excelente, aliás. Mas algo muito interessante que ocorre quando lemos uma obra desse tipo é a separação da imagem mental que fazíamos daquele artista da realidade. É cruel desapegar de uma imagem irreal, mas sempre necessário - e inegavelmente ocorre em qualquer biografia. Em Tocando a Distância, vemos Ian não apenas como o jovem músico brilhante e melancólico que foi, mas também como um homem egocêntrico, machista, que humilhou a esposa diversas vezes e chegou ao ponto de agredi-la fisicamente. 

Esse livro foi lançado originalmente em 1995 e serviu de base para o filme Control, de 2007, também sobre o músico. Os últimos capítulos do livro são extremamente tristes, com Deborah contando sobre os últimos momentos de Ian e tentando levantar alguns motivos para seu suicídio, em dezoito de maio de 1980. A romantização do suicídio era algo que Ian fazia desde a adolescência, quando, inclusive, ocorreu sua primeira tentativa suicida - a ideia de morrer jovem era algo que existia na mente dele há muito tempo, talvez impulsionada pelo suicídio de alguns de seus maiores ídolos, como Jim Morrison. Confesso que terminei o livro aos prantos, da mesma forma que concluí o filme Control. 


Outro ponto interessantíssimo sobre a obra é que, através dela, podemos vislumbrar a cena do rock nessa época de mudança do punk para o pós-punk, que aliás, tem no Joy Division um grande ícone. Muitos outros assuntos são comentados, gostei especialmente da atenção que deram para a doença de Ian, a epilepsia. Na época em que foi descoberta ainda se sabia pouco sobre a doença. Um ataque epilético dele chegou a ser confundido com um desmaio em decorrência do abuso de álcool, quando ainda não havia o diagnóstico. Deborah desabafa seus medos em relação à doença e os limites que ela trazia para a vida de ambos. A presença de palco do vocalista do Joy Division era considerada um dos pontos fortes dos shows - e muitos não sabiam que os movimentos que Ian fazia eram, na verdade, uma imitação dos movimentos que seu corpo fazia quando estava sob um ataque epilético. 

Apesar do livro ter 328 páginas, boa parte delas não faz parte da narrativa, mas são letras de música (inclusive as versões originais e não as versões finais, e muitas músicas inéditas ou inacabadas), fotos, escritos aleatórios do músico e agenda de shows da banda. 


A escrita de Deborah é envolvente do início ao fim, há muito sentimento na forma com a qual ela conduz a narrativa. É um livro fácil de ser lido, com linguagem descomplicada e acessível, e é possível chegar ao fim em poucos dias - embora eu tenha me enrolado bastante na leitura, pelo gosto de apreciar aos poucos essa história emocionante. Adorei o livro, e embora o ano tenha começado há pouco, o considero o melhor que li em 2016 até o momento. Me marcou demais. 


Indico principalmente para todos os fãs da banda e do próprio Ian, mas também há qualquer um que goste de pós-punk e da história do rock como um todo. Indico para quem gosta de algumas músicas da banda mas não conhece a história dela mais a fundo: depois de ler é impossível não mergulhar em todos os discos lançados pelo Joy Division. E para qualquer um que tenha interesse numa boa e verdadeira história, é claro. 


E vocês, já conheciam esse livro fabuloso? Consegui despertar o interesse com minha resenha? hahah Me contem nos comentários <3

9 comentários:

  1. Não li o livro mas já tinha assistido o filme Control e é mesmo triste o final, é muito triste a história do Ian mas a banda fez uma importância legal no cenário punk da época ;)

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    1. Oi Diana! Lindo o filme, né? Me emocionou demais. Agora sempre que ouço as músicas acabo lembrando da história dele...
      beijos

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  2. Não sabia da existência do filme, nem do livro e também conheço pouco da banda.
    Adoro suas indicações e seu blog por inteiro, Bruna. Beijo :*

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    1. Oi Natália, fico muito feliz que tu goste do meu bloguinho <3
      beijão

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  3. Não tenho costume de ler biografias. Na verdade, acho que não li nenhuma até hoje, mas estou com uma pra começar em breve. Até acho interessante a propostas delas de mostrar os bastidores do que a gente conhece, mas sei lá porque motivo até hoje não tinha lido nenhuma.
    Gostei bastante da sua resenha sobre essa do Ian e espero poder ler algum dia. Sei lá quando já que tô com uma fila enorme de livros pra ler.. rs
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    1. Oi Mone! Não sou a maior fã de biografias, mas as vezes não dá pra fugir rs. HUHSHUHUA Entendo, também estou.
      beijos

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  4. Me apaixonei pela seu blog. Cheguei aqui pesquisando por resenhas sobre esta biografia, pois sou apaixonada por Joy Division e pela vida do Ian Curtis.
    Além do excelente texto, encontrei muitos outros assuntos que adoro, gostos em comum. Eu realmente fico muito empolgada quando isso acontece, pois onde eu moro é difícil encontrar pessoas com gostos parecidos com os meus.

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    1. Oi Aline! Tu não imagina como eu fiquei feliz com teu comentário, guria <3 Essa biografia é excelente, um deleite pros fãs, tenho certeza que tu vai se emocionar.
      Fico muito feliz que tu tenha gostado do meu bloguinho <3 Sinta-se em casa aqui, adoro conversar com as pessoas que leem o blog e compartilhar nossos gostos em comum.
      beijão!

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  5. Muito bom. Tenho o filme, vou comprar o livro!!!

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