Sobre os dias que insistem em chegar


Mariana decidiu-se: chegara o dia.

Revisou o plano inteiro mentalmente, uma, duas, três vezes, perdera as contas. As mãos suando por conta da ansiedade, a sensação tenebrosa de sufocamento que acometia seu peito. Não conseguia pensar direito; frases desconexas e lembranças atuais e antigas surgiam numa velocidade além do processamento. Estava surtando.

Sabia que estava na hora de sair de casa. Quantas vezes pensou em fazer isso? Quantas vezes não precisou conter o impulso de fazê-lo, e agora, pés colados ao assoalho, com a mente completamente decidida, e mesmo assim, seu corpo não parecia obedecer-lhe.

Virou a cabeça a ponto de enxergar a luz piscante vermelho vivo do microondas na cozinha: dezoito e sete. Sete minutos atrasada para sair de casa a ponto de chegar às dezenove no trabalho.

O trabalho que invariavelmente não mais faria. Sentia um profundo alívio ao pensar que não precisaria mais olhar nos rostos dos colegas de trabalho. Não precisaria mais se esforçar por fazer os músculos do rosto se mexerem, forçando um sorriso encabulado diante de brincadeiras que todos pareciam ver graça - menos ela. Pensou no alívio que seria não mais ter de se enfiar por entre os vãos do trem, se espremendo entre um corpo quente e outro. Pensou em como seria bom simplesmente não mais ouvir notícias tristes, não mais se decepcionar com o que os outros dizem, não mais ouvir nada. O silêncio profundo e eterno era um plano plausível. 

Chegara o dia.

Quantas vezes não olhou para os trilhos do trem no minuto anterior ao que este se aproxima? Quantas vezes não pensou em como seria fácil (e prazeroso, até) apenas continuar andando e não parar antes da linha amarela - apenas seguir em frente. Apenas seguir. Apenas.

Mariana ouvira dizer, na palestra de uma psicóloga em sua empresa, que todo mundo, uma vez ou outra, já cogitou o suicídio. Mas Mariana sabia o quão grande era o tamanho daquela mentira.

Quem pensa em suicídio pela primeira vez não consegue mais abandonar esse pensamento. Ele torna-se um plano B, uma solução possível para todos os tormentos da vida. Entrar no facebook e se deparar com discurso de ódio - melhor morrer à ver isso novamente. Atravessar a rua e ouvir a buzina de um motorista logo antes de ouvi-lo gritar "gostosa!" - como seria ótimo ter morrido antes disso.

Morrer começa a ser a alternativa possível para tudo o que é ruim. Para tudo o que se gostaria de excluir do mundo, jogar para baixo do tapete. Para tudo que não se quer mais ter de lidar.

E Mariana sabia que era difícil abrir mão dessa ideia confortável e segura de plano B. Quando você pensa que há uma opção (além das que a maioria das pessoas pensa ter) é difícil abrir mão dessa ideia. Porquê você se torna íntimo dela - a abraça, sente-se próximo dela. Sente-se como o guardião de um segredo só seu.

Mas às vezes esse segredo consome as pessoas.

E consumiu Mariana.
E ela sabia - chegara o dia.

Finalmente sentiria o peso do trem esmagando seu corpo, cortando sua carne, triturando os ossos de todo o seu corpo. Podia tentar imaginar o que passaria pela sua mente no instante em que a morte não fosse só uma ideia distante, perdida entre tantos outros devaneios. Arrependeria-se? Sentiria alívio? Veria toda sua vida passando por seus olhos, como num clichê hollywoodiano?

Pensou em todas aquelas esperas pelo trem - dia após dia, mecanicamente. Pensou nos quatro passos que tinha de dar, todos os dias, para se afastar da lateral da escada rolante e chegar até a linha amarela onde as pessoas aguardavam as portas se abrirem. Quantos passos daria hoje? Cinco? Seis? Teria tempo para pensar em algo enquanto a morte encontraria-se a um passo de distância?

Diante do turbilhão de questões que permeavam sua mente, mexeu os pés para afastar a sensação de formigamento que ali se instalara. Não havia mais tempo - Mariana sabia, quando a dúvida se instalava, era difícil afastá-la para longe de seus pensamentos. E já havia ponderado demais, adiado demais... o inadiável. Num suspiro longo levantou-se do sofá e caminhou os poucos passos que separavam-no da porta de casa. O metal da maçaneta estava num frio quase cortante.

No segundo em que girou para abri-la, sentiu um arrepio percorrendo-lhe as pernas: olhou para baixo e encontrou dois olhinhos amarelos olhando-a com o que parecia ser toda a ternura existente no universo. Seus pelos lhe roçando as pernas geladas de nervosismo fizeram Mariana lembrar da existência dele - fato perdido entre os seus pensamentos caóticos.


Lembrou de quando encontrou aquele cachorro faminto e magricela no meio de uma madrugada de outono as quatro horas da manhã - devia ser a cabeça lhe pregando uma peça, mas podia jurar que fora o mesmo olhar que ele lhe lançara. O olhar que a fez esquecer que estava à noite numa rua com pouca iluminação e que precisava andar depressa - o olhar que a fez parar e levá-lo junto de si.

Quando se pensa em suicídio, uma das primeiras razões capazes de afastar essa opção da mente de alguém é ter por quem sentir falta. Ter por quem ficar, por quem desistir de pôr fim a própria vida não é um dos motivos mais éticos, mas sabemos, é um dos mais plausíveis. Mariana nunca fora alguém de muita amizades - as da época do colégio foram se perdendo aos poucos, esquecidas entre a rotina cansativa de trabalho para manter o apartamento que alugara há cerca de dois anos, quando saíra da casa dos pais, com quem não tinha um bom relacionamento. 

Os colegas de trabalho eram só isso mesmo - colegas. Nenhum contato poderia se fortalecer em meio a rotina competitiva da empresa. O afeto parecia uma história bonita e distante, dessas que contamos para as crianças que ainda não sabem ler. 

Sem alguém por quem decidir ficar, não restava muito para firmar o laço que prendia Mariana à Terra. Já havia enumerado todas as razões possíveis para não fazer o que queria - e riscado todas. Motivos fúteis não prendem ninguém. 

Mas diante daqueles olhos amarelos e dóceis, Mariana pensou em como seria triste não mais voltar para casa - não mais ser recebida por uma festa efusiva que vinha com direito a lambidas, pulos e abanar de rabo. Sempre que pensava no suicídio, pensava em como seria não mais viver, na prática. Não pensava em como seria não mais voltar para casa.

Olhou para o bicho escorado em suas pernas, pedindo por um afago antes de ver a dona deixar seu lar e pensou no que aconteceria com ele. Não podia simplesmente deixá-lo ali, sem comida, à mercê do tempo que os outros moradores do prédio poderiam levar para perceber que ela não mais voltara. Não podia condená-lo a frieza das ruas novamente - não depois de ver a mudança que poucas semanas de afeto e cuidado surtiram nele.

A maçaneta da porta já estava quente quando Mariana a soltou - sem de fato abri-la. Sentou-se no sofá novamente, agora com o animal peludo entre os braços, insistindo em lamber as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

Ficou pensando em quantas pessoas andam por aí, presas ao mundo por motivos tão singelos.

12 comentários:

  1. Deus, isso foi tão lindo! Eu tô chorando de verdade. Me lembrou de uma coisa que realmente não vale a pena falar, mas enfim. Esse texto foi ótimo, simplesmente amei isso. Você escreve muito bem.

    P.s.: espero que você esteja bem. Não sei o motivo, (talvez por experiência própria), mas sempre quando leio um texto assim tenho a sensação que quem o escreveu está passando por algum tipo de momento. Enfim, tudo de bom pra você.

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    1. Oi Ana! Fico muito feliz que tu tenha gostado e até te emocionado <3 Confesso que escrevendo também me emocionei. Ah, e tá tudo bem sim. Eu gosto de escrever ficção ^^
      beijão

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  2. Lindo conto! Fiquei contente com o final. :] A prova de que a alegria está nas coisas mais simples da vida.

    Beijos!

    Madessy.com

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    1. Oi Madaha! É verdade. Essa é a essência das coisas, né?
      beijos

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  3. Nossa que conto triste mlr! Te juro, me deu um alivio enorme que ela desistiu por causa do cãozinho. Suicídio é um tema mto delicado, acho triste quando as pessoas resolvem opta-lo como a única solução para resolver os problemas, pelo menos nesse conto alguém pôde detê-la. Por isso que os animais são tão bons companheiros do que qualquer ser humano. Ótimo texto, beijão ;**

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    1. Oi Anna! Suicídio é um tema bem complicado :( Os animais realmente ajudam a deixar a vida mais bonita, pelo menos eu vejo assim. Muito obrigada <3
      beijos

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  4. Eu tô: chorando.
    Sério, sem palavras pra isso! ♥

    http://blogsegurame.blogspot.com.br/

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    1. Oi Islanya! hahaha, fico feliz, se te emocionou eu tô no caminho certo ;p
      beijão

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  5. Adorei o conto Bruna!
    Muito lindo! ^^
    O cachorrinho da minha vida é a minha família... se não fosse por eles era bem capaz de não ter motivos para ficar por aqui.. esse mundo cansa a gente de todas as formas possíveis, né... ^^'
    Mas assim como seu conto bem demonstrou, o importante é saber aliviar esses momentos com a felicidade que está nas coisas mais simples da vida.
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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  6. ameeei *-* nossos animais de estimação são como filhos, estrelinhas em nosso coração que nos fazem acreditar num plano c!

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