Trem das dez


Eram quase dez horas da noite e o calor - sobretudo dentro do trem - era infernal. Bom, eu não sei se o inferno existe e tampouco se é quente como dizem - pelo que sei, ninguém jamais voltou para contar. Mas se ele existisse, deveria se parecer muito com o trem lotado das dez da noite - entulhado de gente com semblante cansado, muitos mal se aguentando sobre as pernas doloridas de mais um dia de trabalho. Junto com o cheiro de suor, paira no ar uma certa melancolia nada romântica, bem diferente da que estamos acostumados a ver em filmes cult
Passeio meu olhar pelas pessoas. Sou um destes infelizes que nasceram dotados de algo considerado ultrajante neste século - o interesse pelos outros. Me interesso por seus semblantes cansados. Me interesso pelo rapaz que abraça sua mochila curvando o tronco como se estivesse encurralado pelos assediadores da escola. Me interesso pela moça que folheia um livro do Paulo Coelho com os dedos finos e ágeis enquanto, vez ou outra, ajeita uma fina mecha do cabelo dourado por trás da orelha. Também não consigo evitar um sorriso ao ver, em meio àquele caos de calor, cansaço e suor, uma moça muito bonita de cachos coloridos entrar no trem, abrir um sorriso e correr para os braços do rapaz que a espera. Ele pergunta meio sem jeito como foi o dia dela, e eu, mais sem jeito ainda, percebo que não é legal ficar ouvindo a conversa dos outros - mas que fardo enorme carrego eu, esse de me interessar pelos outros. 
Nunca tive a facilidade que muitos tem em prestar atenção à diversas coisas ao mesmo tempo. Eu me interesso por tudo, mas precisa ser cada qual em seu tempo. Os excessos me dispersam. Nunca fui bom com opções aos montes, fico um tanto desnorteado. E é por isso que me contento em observar as pessoas dentro do trem - quando ele se abre, meus olhos voltam-se para os novos rostos cansados que entram, alguns apressados pela correria, outros tantos desanimados pela espera - mas confesso que nunca desprendi muita energia para observar o que há lá fora. E nossa, como há vida lá fora, se espremendo pelas frestas das portas do trem que se abrem, tão rapidamente que mal percebemos. 
Enquanto sentava ao lado de um homem com fones de ouvido e short de academia, procurei alguma coisa para olhar. Me sinto feliz em espiar os livros que as pessoas leem, tentar decifrar qual é o nome (de longe nem sempre é possível ver) e que tipo de literatura agrada àquela pessoa - mas no trem das dez pouquíssima gente lê. Não os culpo - o cansaço é grande e a euforia por logo chegar em casa e comer uma refeição quente não permite a todos um momento de concentração nas palavras. Mas nesse momento em que procurava algo para olhar, meu olhos concentraram-se lá fora: no mundo que se espreme entre as pequenas portas do trem, insistindo em nos mostrar que há algo além dessa rotina cansativa e desgastante. 
Quando olhei rapidamente, me surpreendi com o enquadramento perfeito de uma sacada de apartamento na porta do trem - parecia uma fotografia, o espaço ao lado da sacada, tanto do lado direito quanto do esquerdo, parecia milimetricamente calculado. A fachada do prédio era velha e sem graça - um branco acinzentado pelo tempo, descascado em algumas partes. Um homem sem camisa falava ao celular, sorrindo, rindo às gargalhadas enquanto a porta do trem se fechava. Ao lado dele, um cachorrinho vira-lata abanava o rabo e olhava para cima, procurando o olhar alegre do provável dono. 
Que cena bonita, aquela. E não era nem o enquadramento digno de um filme de Wes Anderson que a tornava bonita - era a simplicidade da alegria estampada no sorriso daquele homem, no abanar do rabo daquele cachorro, uma alegria tão singela e tão fugidia às pessoas do trem das dez. 
Por um momento, quis tanto saber o que aquele homem falava ao telefone. Quis saber para quem era aquele sorriso, aquela gargalhada. Quis saber o que ele estava dizendo, o que diziam para ele. Quis saber se ele ia desligar o celular e afagar os pelos do vira-lata que clamava por isso com tanto amor e entusiamo. 
E enquanto as portas do trem se fechavam, um adolescente de cabelos bagunçados e camiseta do Faith no More enfiou o braço magricela por entre elas - um estrondo se deu (um pouco assustador, confesso, sempre é), as portas tornaram a abrir-se, ouviu-se a famigerada voz eletrônica dizendo que não devemos entrar ou sair do trem após o sinal e a viagem seguiu, com o garoto já do lado de dentro e acariciando o próprio braço levemente machucado pela pressão das portas. 
Não preciso nem dizer que nesse momento eu já havia esquecido completamente do homem com o cachorro na sacada. E nos minutos seguintes ia me esquecer daquele garoto e prestar atenção em outra pessoa qualquer. 
Eu e essa minha terrível mania de me interessar pelos outros. 

8 comentários:

  1. Adorei o texto! ^^
    Parar de vez em quando pra observar as pessoas é bem engraçado. A gente aprende tanto com esse simples ato que muito deixam passar pela pressa, pelo cansaço ou pela falta de interesse mesmo...
    Talvez as pessoas fossem menos egoístas e mais empáticas se fizessem isso de vez em quando.
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    1. Oi Mone! Fico feliz que tu tenha gostado. É verdade, eu faço muito isso - até demais rs.
      beijos

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  2. Adorei o texto, gostaria de saber se foi real, ou só uma inspiração, também amo observar as pessoas, cada uma com seu jeito, outras sem jeito...
    Beijos

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  3. Que texto lindo. Isso é muito eu! Eu particularmente não gosto de ser assim, porque às vezes eu fico observando as pessoas e elas olham para mim com a cara de "cuida da tua vida". Mas é algo tão involuntário em mim que mesmo assim continuo observando SHUAHUsha eu adoro observar as pessoas. É interessante como a gente aprende e reflete bastante apenas ao observar o próximo.

    Belo texto!
    Beijos!

    madessy.com

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    1. Oi Madaha! Muito obrigada <3 hahaha te entendo, também acontece comigo, mas é difícil evitar.
      beijos

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  4. Own que texto agradável de se ler, parabéns Bruna, tu tem mto talento em se expressar nas palavras! Perdi o costume de escrever sobre sentimentos, coisas aleatórias, daí admiro quem os fazem! Gosto dessa coisa de observar as pessoas, porém sem ser observada ;)
    Beijão escritora ;**

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    1. Oi Anna! Muito obrigada <3 Eu escrevo bem menos atualmente, mas a gente tem que aproveitar as ideias que surgem, por mais 'simples' que sejam, podem virar um bom texto. hahaha a gente sempre acaba sendo observada também, sem saber :p
      beijão

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  5. Parece eu no metrô aqui em Sampa! Muito bom Bru, você pegou uma questão tão comum e explorou-a tão intensamente que ela se tornou exclusiva!
    Beijo!

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