Um pouco de empatia, respeito e sororidade


Existe uma ideia bastante difundida de que as mulheres são falsas e suas amizades, portanto, fúteis. Essa ideia tem como base preceitos machistas e estereótipos de gênero, como se houvesse uma qualidade ou defeito inerente à todas as mulheres. E não existe. O que existe é uma cultura e uma sociedade erguida sob bases patriarcais: quando se difunde uma onda de competição entre as mulheres, não é necessário se preocupar com elas - elas perdem mais tempo divergindo entre si próprias do que se organizando. 

Desde muito tempo eu comecei a observar esse viés competitivo que existe com muito mais força entre as mulheres. Comecei a observar o quanto as mulheres são cruéis com elas mesmas, como estimulam principalmente padrões de beleza e de gênero sem perceber que isso afeta direta e unicamente a elas. E isso sempre foi algo que me incomodou muito. E então eu conheci o feminismo, todas as suas vertentes e seus conceitos. E fui apresentada a um de particular importância: a sororidade. 

A sororidade nada mais é que a união feminina, como uma irmandade, reconhecendo-se como mulher a si e as outras, e enxergando as particularidades sociais de sê-lo. A sororidade é um dos conceitos feministas mais difundidos e primordiais, e que devia ser tomado como um preceito básico por todas as mulheres. 

E a sororidade precisa ser posta em prática. Não na internet. Não só com o seu grupo de amigas, não só com as mulheres da sua família - mas com todas as mulheres. É necessário praticar a sororidade principalmente com aquelas que não compartilham das mesmas ideias que nós - porque amar ao outro só quando ele concorda com a gente é muito, mas muito fácil. É preciso praticar a sororidade com mulheres que possuem diferentes problemas, que vivem realidades diferentes da nossa, com opiniões diferentes, mas sempre com seus problemas surgindo das mesmas raízes.

Eu vejo muito sendo falado sobre isso na internet. Mas eu sinceramente não vejo mudanças palpáveis grandiosas nos relacionamentos entre mulheres - e é delas que nós precisamos. A sororidade também não é uma desculpa para passar a mão na cabeça de mulheres que cometem atos inaceitáveis - preconceitos precisam ser problematizados, mas sem atacar a vida sexual de ninguém por isso. Um ótimo exemplo é o que aconteceu na época das eleições: quer criticar a Dilma dizendo que ela não é uma boa governante e apontando argumentos sobre isso? Totalmente ok. Quer criticar a Dilma desqualificando a pessoa dela por suposições sobre sua vida sexual, como chamá-la de puta/vadia e etc? Totalmente não-ok.

Quando você chama uma mulher de vadia por seu comportamento, quando critica suas roupas, sua pele, seu corpo, quando tenta modelá-la para que ela caiba dentro dos padrões de beleza é como se você cuspisse no próprio rosto. Atacar as outras mulheres não é simplesmente isso - é atacar a si própria também. É desqualificar a todas nós. Ridicularizar mulheres que não se enquadram em padrões de beleza é dizer que nosso maior objetivo de vida é ser bonita. E não é - não tem que ser. 

Há um longo caminho pela frente quando se fala em união, respeito, solidariedade e sororidade, nós sabemos. Há toda uma sociedade que insiste na rivalidade entre a gente, porque isso gera ansiedade, insegurança e mulheres inseguras geram lucro. Mas a mudança precisa começar por nós mesmas, muito mais que absorvendo conceitos pré prontos, mas com a prática de uma nova mentalidade no relacionamento com outras mulheres. É preciso ter empatia, se colocar no lugar das outras e repensar diversas atitudes. É preciso se colocar mais no lugar das outras.

É preciso parar de cuspir na própria face. 

19 comentários:

  1. Sororidade precisa mesmo ser posta em prática mesmo. Eu sempre digo que a gente não deve colocar ela acima do nosso bem estar físico ou emocional (tem situações que a gente não consegue ajudar as irmãs e é difícil aceitar que às vezes o melhor é se afastar. Descobri isso da pior forma hehe), mas ela é a coisa mais maravilhosa que eu já vi na minha vida, porque só uma mulher entende o sofrimento de outra. Passei por várias situações loucas e incríveis por conta dela.
    A verdade é que se chamo a mana de vadia hoje, amanhã é um macho tosco falando isso pra mim... demorei muito tempo pra perceber que atacar a outra não fazia com que eu não fosse atacada também, reproduzir opressão não me protege, não me torna imune. Acho que no fim somos todas vadias quando não queremos cumprir o papel que a sociedade nos impõe, né?

    Li uma entrevista da Barbara Sweet uma vez falando que a vida dela mudou MUITO quando ela descobriu a sororidade, porque o rap é um espaço muito machista. Nessa entrevista ela diz que passou por situações de abuso onde até quem eu achava que era amigo ficou contra ela, do lado do cara. No fim é só uma mulher que vai te dizer "vem cá... pode chorar no meu ombro, eu te entendo".

    Enfim... adorei teu texto. E ele me lembrou um poeminha da Sweet também (sim eu amo essa molier hauiha).

    "Ô mina!
    To aprendendo todo dia sobre ser, sentir e propagar o feminismo. Como humana que sou, sigo passível de erros. Nuns dias sou mais amor, em outros sou menos. Nuns dias sou paciente, em outros sou ansiosa. Nuns dias sou didática, em outros sarcástica. Não vim pra ser perfeita, mas vim pra aprender e sigo nesta batalha.
    Sororidade é algo que sobrepõe nossas diferenças e nos põe de mãos dadas na linha de frente. Não me use como exemplo, me tenha como irmã e vamos aprender sobre caminhar unidas.
    Porque de tudo que aprendi o mais real é que: QUANDO ESTAMOS JUNTAS, SOMOS IMBATÍVEIS."
    (Bárbara Sweet)


    Beijo, gatz
    Maruja Marota

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Ketryn <3 É bem verdade. Por mais empatia que tenha, há coisas que um homem nunca conseguirá entender sobre o que mulheres vivenciam - esse tipo de coisa só nós sabemos. E se nós não nos ajudamos e apoiamos, como nos fortalecer? Infelizmente tem muita mulher que reproduz machismo na ilusão, mesmo que inconsciente, de não ser atingida por ele. Só que não tem como escapar.
      Que incrível esse poema, eu não conhecia :3
      Muito obrigada pelo teu comentário e pela tua contribuição à discussão.
      beijosss

      Excluir
  2. Ótima reflexão!
    Sou feminista e confesso que ainda não pratico 100% a sororidade. Esse padrão que a sociedade patriarcal nos impôs é uma praga, acabamos repetindo pensamentos e ações sem parar para pensar o que aquilo realmente significa. E essa mudança vem aos poucos, nada muda da noite para o dia. O importante é cada um fazer sua parte, refletir, e se colocar na pele da outra pessoa, ter empatia e respeito para recebermos o mesmo de volta.

    Beijo, Bruna!
    :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Marie! É difícil realmente por em prática 100%. Pra isso é necessário muita reflexão, policiamento das nossas falas, problematização... enfim, com o tempo a gente vai melhorando e chegando mais perto daquela atitude que consideramos correta. O buscar isso, querer fazer, mudar, já é muita coisa.
      beijos

      Excluir
  3. Belíssimo texto Bruna! Não sou feminista mas acredito que nós mulheres temos uma força que juntas podemos conquistar tudo oq possamos acreditar, mas claro sem passar uma por cima das outras! E tu tocou num ponto bem importante, a insegurança das mulheres, pois a gnt acaba sucumbindo numa sociedade onde os padrões de beleza são usados como forma de vender nossa felicidade, e muitas vezes não é! Do que adianta comprar um produto da moda, uma roupa da moda ou até msm seguir a dieta da moda se isso não te faz se sentir bonita e feliz por dentro né?! Muitas coisas ainda precisam ser repensadas...
    Abraço e parabéns pelo texto, beijão ;**

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Anna! Nós temos força, precisamos mesmo é apoiar umas as outras ao invés de nos atacarmos. Toda a publicidade tem como foco não a venda apenas de um produto, mas de um sentimento que venha junto: as campanhas veiculam geralmente, mesmo que de forma disfarçada, padrões de beleza/magreza atrelados a dinheiro, felicidade, sucesso pessoal/profissional. É claro que isso gera consequências pras pessoas, né?. Ninguém é totalmente livre quando tenta se enquadrar em padrões. Realmente, muita coisa precisa ser repensada.
      Fico muito feliz que tu tenha gostado do texto <3
      beijos

      Excluir
  4. Bruna que texto mais lindo! Você argumenta muito bem em seus textos de forma muito objetiva, gosto muito disso! Eu concordo com tudo que falou, como já te disse, sou feminista também, acredito que eu faça a minha parte, não 100%, porque às vezes a sociedade é tão hipnotizadora que faz você fazer/dizer algumas besteiras... claro. Enfim, é o que eu penso quando acesso o facebook e vejo muita feminista por aí que diz praticar a igualdade e tal, posta textão no status mas no dia-dia zoa da gorda, zoa da periguete, zoa de transsexual e gays, diminui o feminismo negro, pois mal sabem que as mulheres negras sofrem o machismo com o bônus de racismo. Para você ver que até mesmo dentro de uma organização que deveria ter um consentimento claro em relação a temas super ligados ao machismo ainda não tem...

    Mas é passando informação, lendo e estudando que a gente aprende e ensina muita coisa. E o mundo feminino precisa de textos assim.

    Beijos!

    madessy.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Madaha! Muito obrigada <3 É, vez ou outra a gente se pega fazendo/dizendo ou mesmo se calando perante os que dizem ou tem atitudes que desaprovamos. Mas acredito que só o fato de tomarmos consciência disso, repensarmos e termos o real desejo de fazer diferente nas próximas vezes já é algo grandioso e de muita importância. Sobre esses preconceitos propagados por meninas que se dizem feministas, eu penso o seguinte: o feminismo tomou um viés muito liberal e comercial nos últimos tempos, exemplo disso é o movimento He for She. Quem conhece o feminismo pela mídia e depois se aprofunda, tranquilo, é ótimo. Mas tem gente que não faz isso e continua reproduzindo outros preconceitos. Daí surgem essas intermináveis discussões sobre vertentes do feminismo. Eu só acredito em feminismo interseccional, não consigo lidar com feminismo que não problematiza outros preconceitos enraizados na sociedade e acha que todas as mulheres sofrem o mesmo, porque algumas sofrem muito mais que as outras. Mas enfim, não vou me prolongar pra não escrever uma bíblia rs Obrigada pela tua contribuição!
      beijão

      Excluir
  5. Oi, adorei o seu texto! Acho que quanto mais difundirmos estas ideias para as pessoas, mais elas (nós) iremos acostumar com elas. Também conheci o feminismo faz um tempinho, e foi a primeira vez que ouvi falar de sororidade. Esta é a melhor e maior arma nossa contra o patriarcado, pois somente se baseia no amor e respeito, e contra isso nenhuma violência tem vez <3
    Muito amor pra você também, Bruna! Beijos!

    Fiz um novo blog, se quiser dar uma passadinha lá:
    http://espelho-de-prata.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Andressa! Sim, é verdade, através da reprodução de informação as coisas mudam. A sororidade é um conceito lindo, quando posto em prática de fato, somos capazes de muito :3 Obrigada!
      beijos

      Excluir
  6. Excelente texto! Já convivi com grupos grandes de mulheres e essa "cultura de competição" parece mesmo estar enraizada na cabeça da maioria, vi muitas prejudicarem outras colegas só por implicância, sem dar nem uma chance de conhecer a garota... Concordo com a frase que diz: "É preciso se colocar mais no lugar das outras", acredito que quando isso acontecer tudo vai melhorar e sim, sempre começa por nós mesmas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi! Isso faz parte da sociedade, está enraizado, e não é fácil mudar as coisas quando foram normatizadas. A empatia nos ajuda a compreender que essa competição não gera lucro e benefícios pra ninguém, mulheres não são inimigas, não precisam ser.
      beijos

      Excluir
  7. Oi Bruna, não sou femininas mas adorei o texto. Acredito que se aplicássemos o sentido da sororidade à um todo, seja homem ou mulher para que todos vivessem em igual, finalmente evoluiríamos :)

    www.hipermetropiafashion.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi! A sororidade diz respeito exatamente a união entre mulheres, por isso ela não pode ser encarada como algo 'universal' - ela foi criada para contrapor essa cultura de competição que existe entre as mulheres. Mas o respeito, esse sim devia ser universal e praticado por todos ;)
      beijos

      Excluir
  8. Oi Bruna!
    Amei o post! Tento praticar o máximo de sororidade que consigo! Ainda bem que pra mim isso não é algo difícil porque eu já meio que praticava antes de saber o nome e entender que estava inserido no feminismo. Sempre curti união feminina! ♥
    Mas vou te contar uma coisa que me incomoda muuuito, até aqui na internet. É as meninas que chamam as outras de "as inimigas" ou "azinimigas" (no modo gozação). É um termo engraçado? É! Mas é aí mesmo que mora o perigo, porque a "graça" disfarça a desunião. Eu não curto sabe? Tem que ver porque a outra é uma "inimiga". Ela merece ser chamada assim? Se é inveja, acontece... mas acho uma palavra pesada sabe? E quando é por motivo de bofe ou outras futilidades ou como você mesma disse "não compartilham da mesma ideia que nós? Acho que esse termo só perpetua, velado, a ideia de que mulheres não podem ser unidas mesmo com as diferenças entre si. E não podemos continuar reproduzindo ele (eu evito-o).
    Bjinhos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Sana! Eu acho incrível que o feminismo é algo que nos ajuda muito a repensar coisas que antes não dávamos tanta atenção, mas também é um movimento que dá nome para os sentimentos que nós há muito cultivávamos, antes de conhecê-lo.
      Isso também me incomoda muito e fico feliz que tu compartilhe do mesmo sentimento, haha. É brincadeirinha? É, mas brincadeiras também passam ideias e acabam normatizando essas competições inúteis entre mulheres, reforçando estereótipos.
      beijos

      Excluir
    2. É, somos tão incentivadas desde novas à rivalidade que praticar sororidade (olha só, a caixa de comentários nem reconhece a palavra, aparece a ondinha vermelha como se a palavra não existisse!!) acaba sendo um aprendizado. Pois é, o termo é engraçado mas ambíguo né? Acho que existem outras palavras que podem ser usadas, "inimigas" é forte demais pra mim.
      Bjss

      Excluir
  9. Excelente texto Bruna!
    Super concordo com você!
    Como você mesma disse, é muito fácil dar a mão a amiguinha que pensa igual, mas depois ir lá e chamar a ex ou atual dx namoradx de vadia e tal.
    É essa competição ridícula entre as próprias mulheres que nos impedem de fazer a diferença nesse mundo machista e patriarcal.
    Se soubéssemos nos colocar no lugar das outras pessoas e respeitarmos os que tem um pensamento diferente do nosso, teríamos um lugar muito melhor para se viver.
    Mas é o que você também disse, essa competição entre as mulheres dá lucro. E pior, além do lucro é o que mantém o patriarcado firme e forte, para nossa infelicidade...
    Enfim, parabéns pelo texto.
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  10. Que texto maravilhoso! Além de falar sobre algo que eu considero extremamente importante, tá super bem escrito. hahaha
    Tudo o que você disse se faz necessário sim. Concordo demais, principalmente onde você fala sobre como criticar o governo da Dilma. Essa é uma coisa TÃO COMUM de ser vista e parece que as pessoas NÃO PERCEBEM o quão errada tá aquela crítica carregada de preconceito e idéias erradas camufladas de revolta. Essa é uma coisa que acontece demais: certas coisas estão tão presas à cultura e educação que a pessoa reproduz certos tipos de preconceito até mesmo sem perceber.
    As coisas são tão simples, não entendo como para a maioria das pessoas precisam ser tão debatidas, tão rebatidas. Direito de ser, gente!
    Ótimo texto, Bruna! Parabéns!


    http://baudecanto.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

♥ Não comente se não tiver lido a postagem, spams são desrespeitosos e serão imediatamente excluídos ♥
♥ Você tem um blog? Deixe seu link ao final do comentário, vou adorar conhecê-lo ♥
♥ Sua opinião é muito importante e eu sempre quero lê-la, aqui você pode discordar sempre que quiser - mas mantenha o respeito ♥
♥ Os comentários sempre são respondidos, mesmo que demore alguns dias. O blogger não avisa quando alguém responde seu comentário, para receber a resposta é necessário marcar a caixa "notifique-me" quando for escrevê-lo ♥

Fanpage | Instagram | LookBook.nu

Tem alguma dúvida ou sugestão?
Você pode entrar em contato comigo pelo e-mail chanelfakeblog@outlook.com