Uma dose de ansiedade e outra de Legião Urbana


Todo dia começava igual. O som de uma canção da Legião Urbana chegando baixinho aos meus ouvidos, como que por descuido. Não era o Renato Russo cantando, infelizmente, embora aquela voz rouca e levemente desafinada também tivesse o seu valor. Eram cerca de oito horas da manhã e acredito que eu era o único a ouvir - no prédio em que vivíamos, não era do feitio dos moradores se alegrarem com músicas à capela pela manhã. Ou em qualquer outro horário. 

Nesse momento eu estava geralmente acordando - me espreguiçando em meio ao edredom macio, desejando mais cinco minutinhos do sono dos justos. A música me ajudava a despertar. Depois de ouvir a primeira canção - porque eram, geralmente, quatro ou cinco em sequência - eu me levantava. Vestia a roupa do trabalho, que era sempre jeans surrado e camiseta sem estampa, mesmo que não houvesse uniforme, aquele parecia o meu. Procurava pelo sapato mais limpo no quarto, buscava algum cinto e lavava o rosto na pia do banheiro, me esforçando para manter os olhos abertos. Passava um pente de madeira bem velho no cabelo, um que roubei da minha mãe quando vim morar sozinho. Passava a mão na minha barba rala de recém-adulto e comia alguma porcaria industrializada enquanto catava as chaves do apê e saía rumo ao elevador. 

O apartamento do menino ficava bem em frente ao meu. A porta era de madeira escura e a parede externa estava amarelada e descascada pela ação do tempo. Nosso prédio não era velho, mas nunca havia sido bem cuidado. Pela fresta enorme entre a porta e o chão eu pude imaginar que muitos insetos deviam entrar ali - mas as oito e pouco da manhã, só a música fugia.

O menino em questão devia ter cerca de quinze ou dezesseis anos e eu não sei que nome tinha: eu faço parte da geração Y e como tal, não sei muito bem como me aproximar ao vivo e a cores. Eu não sei jogar conversa fora. Eu não sei falar sobre o tempo. Não sei nem desejar bom-dia ao porteiro do prédio sem antes brigar internamente sobre qual a entonação ideal da voz no momento deste singelo bom-dia. Eu sou tímido, ou, como dizia meu pai em alto e bom som, eu sou tapado. 

Mas essa coisa de acordar todo dia (exceto domingos, que não trabalho e durmo até tarde) acabou criando uma espécie de relação entre a gente. Quer dizer, ele nem sabe que eu escuto as músicas que ele toca. Eu não sei nem o nome dele, e pra ser bem sincero, nem faço muita questão de saber. Tá tudo bem do jeito que tá. Nunca me destaquei nesse negócio de "socializar". Não sou bom com pessoas. Não sei iniciar diálogos, não sei fazer amizade. Só gosto de poder acordar todos os dias, ora ouvindo Eduardo e Mônica, ora ouvindo Tempo Perdido ou Monte Castelo. Gosto das desafinadinhas que ele dá de vez em quando. Gosto dessas maneiras juvenis de acordar de manhã cedo, provavelmente enquanto os pais ainda dormem ou depois de já terem saído para o trabalho, e simplesmente cantar. Todos os dias no mesmo horário. Todos os dias a mesma banda, religiosamente. 

E ontem uma colega me pediu um favor no trabalho: trocar de horário hoje com ela, porque há semanas sua mãe está hospitalizada e ela alterna os dias que passa com ela com seus outros irmãos. Já é a terceira vez nesse mês que trocamos nossos horários, mas eu não me importo. Já tive os meus problemas também e é sempre bom ter com quem contar - principalmente num ambiente tão hostil e competitivo como é o meu emprego.

O horário da noite começas as seis. Eu sigo minha rotina habitual, só que hoje não acordei com música - dormi até quase meio dia. Antes de ir trabalhar como um sanduba desses bem recheados, com muito queijo e salada. Quando saio do meu apê, vejo a porta da frente ser aberta também. É o menino, com o violão nas costas. 

Hoje eu troquei a camiseta sem estampa por uma antigona da Legião, acho que era até do meu pai. Um dia ela foi preta, mas hoje é cinza - e o Renatão tá quase irreconhecível, juro. Eu caminho um pouco mais a frente do menino, porque meu passo é mais largo e meu nervosismo habitual sempre me faz andar rápido. Há um tempo eu fui em algumas consultas com uma psiquiatra do meu plano de saúde e ela me receitou uns remédios pra ansiedade. Só que eu sou muito chato com essas coisas e no fim das contas preferi não tomar - sigo com meu nervosismo e minha ansiedade, mas sem nenhuma droga no organismo.

Seguro a porta do elevador para que não feche antes dele entrar, e logo ele entra também. Aperto o térreo e espero. Nosso andar é o oitavo. 

- Adorei a tua camiseta. Eu adoro a Legião. 

A voz dele é bem menos rouca falando. Ainda bem. 

Agradeço e digo que gosto muito da banda também, embora na verdade eu pouco a escute ultimamente - com exceção das músicas que ele canta pela manhã, é claro. Fico pensando se digo que sempre escuto ele cantar, mas demoro tanto nessa luta interna entre falar e não falar que o térreo chega. 

Ele dá um aceno de cabeça e vai embora. 

Eu fico paradão por alguns segundos, meio tapado, como diria meu pai, e depois sigo meu rumo.

E sei que não falei nada porque sou só isso mesmo - um tapado nervoso e envergonhado pra caralho.

11 comentários:

  1. Não sei se foiintencional, mas o texto começou com um dia qualquer, e passou as pressas pro romantismo sutil de uma canção tocada com dedicação e ouvidos de amor.
    Fiquei encantada com a narrativa, foi tão sincera e delicada.
    E acho que ele não falou nada, por já ter saciado a curiosidade de ambas as partes.
    Ele queria conhecer o musico das manhãs, e deixou que o garoto conhecesse o ouvinte tímido.
    Sexo, Fraldas e Rock'n Roll

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    1. Oi Paola! Muito obrigada, é muito gratificante ler isso e saber que tu gostou <3 Creio que eu no lugar dele também não teria falado nada - porque afinal, eu sou uma dessas pessoas ansiosas, envergonhadas, nervosas e tímidas pra caralho, uhauhauahsuahs.
      beijão

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  2. Cronica muito bem escrita, li tudo sem dificuldades ou com pressa de terminar, parabéns pelo dom. Também adoro Legião.

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    1. Oi Sarah! Muito obrigada :3 Legião é só amor.
      beijos

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  3. Quase me reconheci toda nesse texto... rs
    Péssima em lidar com pessoas, meio anti-social, não sei jogar conversa fora... e por aí vai.. rs
    Muito bom! ^^
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    1. Oi Mone! hahah eu também sou assim. Aliás, acho que a gente sempre acaba colocando um pouco de nós nos personagens rs. Obrigada!
      beijos

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  4. Super curti teu texto Bruna! Acho incrível pessoas que tem esse dom de escrever tão bem, de uma maneira simples e fácil de se ler e que ao msm tempo passam um sentimento pro leitor. Parabéns guria :)
    Beijão ;**

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    1. Oi Anna! Muito obrigada <3 Escrever é uma terapia, é sempre algo gostoso de se fazer.
      beijos

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  5. Que gracinha, história de amor despretensiosa movida à Legião *-*
    Vou mandar para as meninas do blog, elas vão amar <3

    Faroeste Manolo

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  6. Que texto lindoooooooooooo! ♥
    Nossa, amei demaaaais. Fiquei tão empolgada que não consigo nem pensar no que comentar. haha

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