Sobre os alienígenas na cabeça do Seu João


O Seu João ainda não havia entrado na casa dos cinquenta quando começaram os rumores de que sua lucidez já não era grande coisa. Mesmo assim, ele tinha criado dois filhos e nunca (pelo que se sabia) tinha feito mal à ninguém. Não havia risco a correr, era o consenso na vizinhança. Talvez ele não fosse mesmo muito normal, mas quem, afinal de contas, o é? 

Foi perto dos sessenta que as coisas começaram a piorar, e daí tudo descambou de vez. O Seu João sempre teve um papo meio desconexo, falava coisas meio sem sentido, misturava histórias, se perdia nas frases mais simples. Quando eu era criança e ele ainda não tinha os cabelos brancos e desgrenhados que tem hoje, lembro de um episódio que, na época, não me pareceu de grande significado, mas que ficou na minha memória. Eu estava jogando futebol na rua com mais alguns meninos que deviam ter no máximo onze anos. A gente pegou um pouco de giz branco e riscou as goleiras na rua, tudo certinho, bem organizado. Só que o Miguel acabou errando um pouco ao medir a força e chutou a bola alto demais, e acabou entrando no pátio do Seu João. 

O Seu João tinha o hábito de ficar várias horas sentado numa cadeira de plástico meio amarelada, na frente de sua casa. Ele ficava lá, tomando sol, com aqueles olhos claros bem esbugalhados e fundos, sempre parecendo perdidos no nada. A bola caiu bem perto dele e fez um estrondo enorme. Mesmo assim ele pareceu não enxergar, e quando eu pedi que, por favor, ele pegasse a bola e nos devolvesse, ele só continuou lá paradão, vidrado no nada. Depois de uns cinco minutos de insistência e choramingos no portão dele, a gente acabou inventando outra brincadeira e desencanou da bola. 

Só que, como eu dizia, até aí tudo estava bem, ninguém reclamava de nada, embora sempre houvesse fofocas rolando sobre as esquisitices do velho - coisa normal numa rua como a nossa. Mas depois dos sessenta a coisa desandou. Ele passou a não responder nem aos próprios filhos, e as vezes, quando respondia, fazia perguntas que davam a entender que ele não sabia nem quem eles eram. A esposa do Seu João deixou ele há muitos anos atrás, e ele vivia sozinho desde então. Os longos períodos sentado sozinho na frente de casa começaram a acontecer em conjunto com longas (e esquisitas) conversas sozinho. Ele parece realmente irritado com algo. Estava sempre gritando, xingando, com o rosto contraído e tenso, a testa enrugada. Já aconteceu de pessoas que passavam pela rua acharem que o papo era com elas. Mas ele nunca respondia quando alguém ia tirar satisfação. 

Nessa mesma época um vizinho nosso sumiu. Assim mesmo, simplesmente desapareceu, só com a roupa do corpo e com os dez tostões que levava no bolso do jeans surrado. Ele já não era nenhum mocinho, devia estar perto dos quarenta e cinco, e durante muito tempo só o que se falou foi sobre seu desaparecimento. O nome dele era Manuel, e tinha esposa, filha e até um netinho. E num belo dia, o Manuel simplesmente sumiu. Saiu pra comprar qualquer coisa no mercadinho da vila e nunca mais apareceu. A polícia foi na casa da esposa dele várias vezes. No começo era todo dia, depois foi ficando mais eventual e depois eles simplesmente pararam de ir, mesmo que ela continuasse ligando pedindo satisfações. Começaram a dizer que o Manuel tinha outra, que era uma dona rica e que ele saiu sem levar nada pra que ninguém encontrasse ele. Eu duvidei sempre dessa história porque ela sempre pareceu muito mal contada. Ele não era o tipo de cara que trai a esposa, e no mais, nunca vi nenhuma dona rica com ele. Só que ninguém liga quando um homem adulto e pobre desaparece - afinal de contas, ele devia estar só cuidando da própria vida do jeito que bem entendesse, não?

Também foi nessa época que os vizinhos começaram a prestar mais atenção na loucura do Seu João. Porque se antes ninguém prestava atenção direito no que o velho resmungava durante seus longos monólogos, agora ele até se metia no meio das conversas dos vizinhos. Sempre com aquele jeito de quem passou a vida inteira recluso e não sabe conversar com as pessoas. O Seu João sabia exatamente o que tinha acontecido com o Manuel. 

Ele havia sido abduzido por alienígenas. 

A primeira vez que eu ouvi essa história, confesso, eu ri bastante. Lágrimas saíram dos meus olhos e minha barriga começou a doer tanto que tive que me curvar, e mesmo assim, ainda não conseguia parar de rir. Só que o Seu João nunca trocava o disco, sabe? Ele batia sempre na mesma tecla e até quando os vizinhos deixaram de falar sobre o sumiço repentino do Manuel, ele continuava insistindo nessa história de abdução. O Seu João devia ser um desses velhos perdidos no próprio mundo, obsessivos por assuntos que que exerciam um certo tipo de fascínio maluco sobre eles. 

Há umas duas semanas o filho mais velho do Seu João internou ele. A gota d'água para o filho foi chegar em casa e ver o pai colocando fogo na cozinha. Até agora ninguém sabe o motivo, e o velho não falou, além de não reconhecer o filho. Isso não é estranho, porque todo mundo já sabia que o Seu João não ia bem das ideias. Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer; era o que o destino resguardava pra ele.

 Só que na semana passada, mais precisamente na quarta, de tardezinha, aconteceu algo estranho. 

A filha da dona Cristina, a Clara, sempre voltava da faculdade no máximo até as 23:30h. E ela não voltou. Ainda não se sabe o que aconteceu com a menina, que sumiu assim, do nada, só com a roupa do corpo e os livros da faculdade e até agora não deu sinal de vida. Na mesma hora eu lembrei das histórias de alienígenas do Seu João.

Fiquei pensando em como o velho estaria agora. No que é que estavam fazendo com ele lá na casa dos loucos, se ele ainda falava dos mesmos assuntos, se ele se debatia e dava trabalho pros enfermeiros ou se assustava todo mundo com aqueles olhos azuis claríssimos vidrados e sinistros. Fiquei pensando no que ele diria se soubesse que a Clara sumiu também.

Ontem de noite eu estava voltando da quadra de vôlei quando vi um negócio esquisito. Eu jogo todas as terças e quintas-feiras durante duas horas com uns caras do trabalho. Quando estava subindo a rua aqui de baixo, muito rapidamente, pensei ter visto umas luzes estranhas no céu. Pode rir, tudo bem. Eu sei que você vai dizer que nesses momentos de tensão a gente não consegue pensar direito. Talvez eu esteja um pouco fissurado pela história do Seu João. Talvez esse negócio de loucura seja tão contagioso quando uma gripe qualquer, se espalhando pelo ar. 

Pode pensar o que quiser, mas hoje, eu é que não saio desse quarto depois que escurecer. E no fim das contas, garanto que se você conhecesse o Seu João, ia pensar duas vezes antes de sair também. 

13 comentários:

  1. BRUNA QUERIDA, que texto, que história! Amei.
    Até um momento achei que era real e que era tu contando uma história pessoal, mas ainda bem que não haha.

    Abraço, A.
    Blog Casa Cafeina | DIY e Decoração

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    1. hahahaha eu não estaria aqui pra contar se fosse comigo, estaria escondidinha que nem o narrador :p Muito obrigada, fico muito feliz por tu ter gostado <3
      beijão

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  2. Adorei o texto...
    Loucura é meio que ponto de vista né.. se formos olhar de perto, ninguém parecerá normal ao outro...
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    1. Oi Mone! É verdade, essa noção de loucura/sanidade depende muito de vários fatores, do meio inclusive. Obrigada pela visita! ^^
      beijos

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  3. Gente, tu tem muito que se inscrever num concurso de contos, sério, Bruna! O texto ficou todo lindo, engraçado e bem escrito, não dá pra parar de ler :D Fiquei fascinada pelo Seu João e curiosa pra saber mais sobre a vila e sobre as pessoas hahah


    Beijos
    Brilho de Aluguel

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    1. Oi Thayse! Sabe que eu até já participei? Mas faz muito tempo... Muito obrigada, eu fico muito feliz com isso <3
      beijão

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  4. Amei, ainda mais por ter uma partezinha de mim que acredita nessas coisas.
    Comecei a acompanhar o blog há pouco tempo, e estou gostando bastante.
    Beijos!

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    1. Oi Adla! Tem uma partezona de mim que crê nisso, hahaha. Não consigo acreditar que somos os únicos entre tantas galáxias... Fico feliz com isso, e muito obrigada pela visita! <3
      beijão

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  5. Por um breve momento pensei que isso fosse real, Bruna! kkkk Esse texto me lembrou muito os textos legais que a minha professora de português me passava na 5ª série. Adorei a história.
    www.black-and-rebel.blogspot.com

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    1. Oi Ana! hahahah, meu alter ego é sempre masculino, quando o narrador for homem pode saber que é ficção :p Que bacana, foi nessa época que eu comecei a me aventurar escrevendo histórias, na aula inclusive... e nunca mais parei. ^^
      beijão

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  6. Só eu senti uma imensa pena deste senhor? Coitado, sozinho, lançado à própria sorte. Mesmo que ficção - mas muito real como histórias que ouço por ai, meu avô já foi um seu joão, e tem alguns outros senhores que caberiam muito bem neste nome e nesta descrição.
    Muito bem escrito, envolvente.
    beijos

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    1. Oi Sarah! Fico feliz por ter despertado um pouco de empatia em ti, isso é muito importante. Realmente, quantas pessoas como este senhor não estão jogados à própria sorte, sem ajuda, sem tratamento adequado, simplesmente porque a família não entende e não julga importante?
      Muito obrigada ^^
      beijos

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  7. Desde muito acompanhei suas narrativas, entretanto, digo que de todas as lidas, essa foi a que mais apreciei! Está realmente muito bom! O enredo, a gramática, a forma como conecta e interliga as palavras. O decorrer da história me deixou louca para chegar ao final, soube como elencar de forma a aguçar a curiosidade do leitor. Excelência e perfeição na escrita. Espero que continue assim e se algum dia lançar um livro com certeza ficarei doida para adquiri-lo. Tu escreve muito bem guria! Sério mesmo. Parabéns!

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