Crônica sobre um homem comum



O Joaquim não era um homem novo, não. Já havia passado dos sessenta, muito embora o rosto não demonstrasse tanto - exceto pelas rugas bem marcadas nos cantos da boca, deixando aquela expressão de tristeza permanente em seus lábios.

Ele morava numa casinha simples, há cerca de doze anos, toda feita de tijolo a vista e com aberturas de madeira escura. Era uma casa bonita, tradicional, com um jardinzinho cheio de pequenas flores amarelas e cor-de-rosa na frente - todas plantadas pela Dona Lúcia, a esposa do Joaquim.

Os dois se conheceram há muito tempo, quando o mundo nem sonhava em ser o mundo que é hoje. As coisas eram diferentes, as pessoas eram diferentes - incluindo eles mesmos. Era uma noite fresca de sábado, eles já não se lembravam a data com certeza, mas ainda recordavam da roupa um do outro. A Dona Lúcia usava um vestido azul de tecido levemente brilhante, com a saia cheia e bem rodada, chegando a cobrir seus joelhos. Tinha os cabelos curtos e ondulados num penteado bonito, enfeitado com pequenos grampos. O Seu Joaquim usava uma camisa cinza abotoada até o penúltimo botão - deixando o pescoço longo parecer ainda mais longo, e uma calça de lavagem escura por cima da camisa, com um cinto grosso de fivela prateada apertando-a. Eles eram tão jovens naquela época. O Joaquim não tinha nem sequer a sombra das rugas que hoje fazem sua boca parecer tão triste. E Lúcia tinha um brilho nos olhos - hoje tão miúdos - que emprestava claridade até a noite mais escura. Tinham pouco mais de dezesseis anos quando se conheceram. Namoraram por três anos, sempre com a vigilância constante de seus pais - e nunca conversaram muito bem sobre a vida, sobre o futuro, ou sobre eles próprios - mas sabiam que se gostavam, sim, sabiam.

Depois da adolescência o tempo começa a correr rápido demais, e não poderia ser diferente para eles. No começo a vida foi difícil (e quem disse que hoje é fácil?), mas o Joaquim trabalhava desde moço e mesmo que não ganhasse muito, sabia que o futuro sempre guarda coisas boas pra quem é trabalhador - ou pelo menos era isso que diziam à ele. A Dona Lúcia não trabalhou menos, não. Acordava cedo pra trabalhar numa fábrica de calçados e nem quando engravidou dos três filhos que eles tiveram não parou de trabalhar - começou a costurar em casa mesmo, para as pessoas do bairro.

Os filhos cresceram e cada um tomou seu rumo na vida. A mais velha ganhou o nome de Anna e ganhou o mundo também, viajando pelos mais diversos lugares e sempre trazendo lembrancinhas que mais tarde iriam parar no fundo de uma gaveta qualquer aos pais. Numa das últimas viagens, acabou arrumando um namorado na Europa e ficou por lá mesmo - já fazia uns três anos, e ela não ligava muito. O do meio se chamava Otávio. Tinha uma saúde tão frágil quanto suas pernas finas - que viviam raladas na infância. O Otávio sempre havia sido muito estudioso, muito inteligente, muito aplicado. Acabou casando com uma moça que conheceu na faculdade de ciências sociais - tinham uma casinha bonita eles, e embora não quisessem ter filhos, tinham vários cachorros e gatos. O mais novo se chamava Cláudio e não tinha muito em comum com os outros dois irmãos, parecia que um abismo de diferenças separava os três. O Cláudio morava com dois colegas de faculdade na capital, porque ele cursava design e no interior nem sempre tem esses cursos mais modernos. O Joaquim e a Lúcia ficaram tristes de perder o caçula, mas sabiam que os filhos são do mundo e não dos pais.

E todos os dias, quando o Joaquim chega cansado do trabalho, ele se senta numa velha cadeira de plástico em frente ao jardim e inevitavelmente pensa em tudo que queria ter feito de sua vida, mas não fez. Pensa em todos os sonhos que deixou para trás, em toda a frustração que esconde em meio às rugas no canto de sua boca e pensa que viveu muito, mas que pouco aproveitou da vida. Todos os dias são muito iguais e ele só consegue pensar em todos as metas que tinha, e como não cumpriu nenhuma delas. Lembrou que queria viajar o mundo inteiro, que queria estudar, que queria simplesmente sair por aí sem ter hora pra chegar ou sem dar satisfação pra ninguém - mas já era tarde, e a Dona Lúcia chamava o marido para tomarem um cafézinho juntos, enquanto assistiriam à televisão - o que eles faziam todos os dias, há cerca de quarenta anos. Joaquim não queria ser ingrato, não queria desdenhar de tudo de bom que a vida havia lhe dado - uma esposa maravilhosa, filhos bons, cada um à seu modo, e uma vida estável, sem muito luxo, mas nunca faltando o essencial. Só que toda a noite, quando apagava a luz do abajur na mesinha de cabeceira e finalmente deitava a cabeça no travesseiro, não conseguia dormir. Um turbilhão de pensamentos confusos perturbava sua mente, imagens e sons desconexos, indo mais rápido do que a mente humana pode trabalhar. E lá no fundo, tudo o que ele podia ouvir parecia muito com "e se", "e se", "e se". 

20 comentários:

  1. Caramba, essa crônicae fez refletir muito.

    blogsegurame.blogspot.com

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    1. Oi Islanya, que bom, fico feliz! ^^
      beijão

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  2. coisa linda adorei o texto...

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  3. Que crônica bonita.
    Acredito que nem sempre só as pessoas de idade sentem isso que o Joaquim sente.
    E é isso que nos faz pensar e ir adiante nos nossos planos - refletir sobre nossa vida agora e se estamos realizados vivendo na maneira que vivemos.
    Bela crônica, parabéns!

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    1. Oi! Eu também acredito, aliás, basta estar vivo para ter esse sentimento. Muito obrigada!
      beijos

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  4. Belo texto. Nos faz pensar bastante em como temos aproveitado nossas vidas..
    Eu sou bem mais nova do que o Joaquim, mas sempre que coloco a cabeça no travesseiro, sinto que não estou aproveitando bem a vida...
    A verdade é que se a gente deixa, o mundo acaba nos consumindo antes que possamos aproveitar o que a vida tem a nos oferecer...
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    1. Oi Mone! Também tenho essa sensação. O mundo atual tem um ritmo louco e acelerado demais, acabamos muitas vezes abrindo mão de nossas próprias vontades para nos adequarmos a esse sistema.
      beijo ^^

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  5. Caramba, esse é um texto que eu precisava ler. Assim como a Mone disse, sinto que não estou aproveitando a vida, e por mais que eu seja nova e tenho a vida pela frente, sempre que deito fico pensando nesse "e se", e ler esse texto mexeu muito comigo, pois mostrou que tenho tempo para mudar tudo isso, mas tenho que fazer isso agora, antes que eu passe o resto da minha vida como o Joaquim.

    Prazer, Jéssica

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    1. Oi Jéssica! Vez ou outra temos essa sensação, né? Não é de todo ruim, porque nos motiva a avaliar nossas vidas, definir prioridades e ver o que realmente queremos fazer.
      beijão ^^

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  6. Nossa Bru, que texto maravilhoso, até me fez parar pra pensar na vida, vc está de parabéns <3

    Beijos, Lucas
    www.controversaworld.com

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    1. Oi Lucas, que legal te ver por aqui <3 Fico feliz que você tenha gostado!
      beijos

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  7. Joga um lencinho por que fiquei bem emocionada pelo texto. Sabe, não curto muito festas, passo mais tempo em casa e gosto disso.. mas ás vezes fico me questionando se lá na frente não irei me arrepender ou me questionar por não ter saído mais vezes, por não ter procurado alguém legal ou por não fazer algumas coisas por medo do que as pessoas vão falar e quem eu posso decepcionar. O mundo é uma loucura, e a nossa vida passa tão rápido que agora que estou com quase 18 anos na cara me da um medo danado de enfrentar as coisas sozinhas. É meu último ano na escola, depois tudo vai ficar mais sério, mais complicadinho e as responsabilidades aumentam, o tempo é curto e ~~BOW~~ tudo pode acabar ou ter um novo início ( seilá, a vida e as pessoas são um mistério, é só observar).
    Bruna, deixa eu puxar meu banquinho daqui se não ficarei escrevendo um monte de pensamentos meio blé por aqui kkk.

    Tu tem que escrever mais guria, amo ler e adoro teus textos.

    Blog: Like The Moon
    FanPage do blog

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    1. Oi Dieny! Creio que a gente tenha que aproveitar a vida da forma que melhor gostamos, não é uma fórmula que se aplica à todos. Eu também não sou tanto de sair (odeio essas festas comuns) mas nada me faz mais feliz que ir num bar ou assistir um bom filme no fim de semana. Esse ano de transição entre escola e faculdade é um pouco complicado para todos, a mudança é grande mas no fim das contas a gente acaba se acostumando e aproveitando essa fase um pouquinho mais madura da vida.
      Muito obrigada! Tu não imagina o quanto isso me motiva <3
      beijão ^^

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  8. O Joaquim tem muito haver comigo, ou na verdade eu tenho com ele.
    Minha vida é maravilhosa, já realizei muitos sonhos.
    Mas ainda tenho muito o que fazer, criar, cuidar, cultivar, e tudo isso duraria uma vida inteira.
    Assim como a de Joaquim, e fico pensando, quando terei tempo para isso, ou para aquilo.
    Será se vou poder realizar mais uma porção de sonhos? Quando.
    Tenho tanta vontade de chegar até a idade em que as rugas vão cobrir o meu rosto.
    Ver netos, e bisnetos. mas não sei se conseguirei, tenho medo de conseguir, e só pensar no "E se".
    Texto maravilhoso Bru. Coisa que só vem do coração.

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    1. Oi Paola! Esse é um medo constante: o de não conseguir realizar seus próprios sonhos e também o de conseguir realizá-los mas não se sentir tão feliz quanto achávamos que nos sentiríamos. Mas nós temos que arriscar. Temos que ter nossos objetivos - mas nunca esquecendo daquilo que é realmente importante em nossas vidas.
      Muito obrigada! <3
      beijos

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  9. Oi, Bruna! Adoro quando você posta crônicas ou textos *-* Essa crônica deu a impressão de que terminaria em outra coisa, mas no final teve todo um toque de realidade que adorei. Bem diferente dos mimimis perfeitos e finais felizes. zzzzZZZzzzZZ
    Acho que esse tormento dos "e se, e se..." pode e deve ser evitado por todos nós. Mesmo não dando certo, devíamos testar tuuuuuudo antes de tomar uma decisão concreta, até porque a vida é a vida: instável. Uma hora é tudo bom, é tudo o suficiente e, do nada, pufffffft: insatisfação, arrependimento, descontentamento...
    Enfim, enfim, eu adoooooorei!

    http://salveavenus.blogspot.com/

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    1. Oi Elisa! Fico muito feliz de ler isso <3 É, sempre dizem que meus textos "parecem que vão terminar num final feliz", mas é exatamente dessa reviravolta que eu gosto. A frustração é uma realidade que todos nós, uma hora ou outra vamos experimentar. É inevitável, não dá pra fugir. Mas deixar a vida passar sem fazer o que realmente queremos por medo de arriscar é o caminho mais curto para terminarmos frustrados.
      beijão!

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  10. Ola, Bruna!
    Seu blog é incrível. Bem legal o jeito que você consegue explorar vários assuntos.
    Também quero chegar a idade do seu Joaquim. Quer dizer na verdade além da idade dele. Ser uma mulher comum, mas que luta e realiza seus sonhos. Porque sonhar só sonhar não adianta nada. temos que lutar.
    Abração, Bruna!
    Mas uma vez parabéns pelo blog!

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    1. Oi Viviane! Muito obrigada, fico tão feliz de ler isso <3 Verdade, sonhar apenas não adianta.
      beijão ^^

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