Um ego maior que o sucesso dos Beatles


Eram 18:45h da noite e a biblioteca em breve iria fechar.

Ela passava os dedos finos, longos e apressados pelas fileiras de livros, procurando rapidamente um que há muito queria ler. Os funcionários da biblioteca estavam organizando o local. A pressão de achar logo seu livro fazia com que ela não conseguisse ler com atenção os títulos nas prateleiras, que entravam zumbindo em seu cérebro.
Sentiu uma mecha fina de cabelo tocar em seu braço, e olhou para trás, buscando o dono daqueles cabelos finos e longos.
Ele não era muito maior que ela, tinha os cabelos louros caídos sobre as costas e vestia jeans e camiseta, como quase todo mundo, afinal. O livro preto, levemente esverdeado pela ação do tempo, era uma edição de Frankenstein. Era o livro que ela estava buscando.
Não percebeu se estivera olhando para ele por muito tempo, ou para o livro. Mas os olhos do rapaz se levantaram em sua direção e ele não disse nada, apenas olhou para ela como quem busca uma resposta.
- Eu estava procurando exatamente esse livro.
Ele riu. Não era uma risada feliz e nem parecia genuína. Havia muito escárnio nela. E depois do riso ele continuou a olhar para ela da mesma forma, sem dizer palavra alguma. O silêncio entre eles e o barulho baixinho dos funcionários era desconcertante.
Ela enfim perguntou:
- O que foi?
- Nada. É que isso é muito clichê. Tão clichê como gostar de Beatles.
No minuto exato em que ouviu aquilo, não entendeu direito o sentido. Precisou de alguns segundos para entender as palavras ásperas e bobas, ver de novo aquele sorriso de escárnio - que por sinal, nem bonito era - e conseguir reunir um punhado de palavras.
- Eu não estava tentando dar em cima de você.
Ele fez menção de tornar a falar, mas aquela pequena demonstração já havia sido suficiente. Uma funcionária  passou entre eles e avisou que a biblioteca estava fechando. Aproveitou a deixa e saiu apressada por entre os corredores, e em poucos instantes já estava do lado de fora.
Ficou se perguntando quando as pessoas começaram a cultivar esse comportamento digno de jardim de infância e como isso parecia estar afetado seriamente a maioria das pessoas. Não entendia se isso tudo era natural ou se as pessoas se esforçavam para serem desagradáveis.
Que se danasse Frankenstein. Podia procurar o pdf do livro na internet quando chegasse em casa.

E enquanto vasculhava a bolsa amarrotada de coisas em busca de um cigarro, uma frase lhe veio em mente: ela nem mesmo gostava de Beatles. 

5 comentários:

  1. Sabe que, eu amo bibliotecas, mas esse seu texto me deixou com uma sensação engraçada em relação a elas, uma coisa com misto de agonia e preguiça de lidar com as pessoas... Claro que baixar livro pela internet é bem mais fácil e prático, mas não é a mesma coisa, não são as mesmas sensações e a mesma maneira de se envolver com o livro, embora seja, provavelmente, o mesmo conteúdo. Ai, sei lá, só sei que você escreve muito bem e eu amo ler seus textos, haha

    Beijos
    brilhodealuguel.com

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  2. ai, bruna, que leitura gostosa hahah adorei muito o texto, de verdade. E me fez pensar em inumeras situações que eu não estava dando em cima e a pessoa entendeu que sim, devido ao ego maior que o sucesso dos beatles hahaahah

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  3. Nossa, adorei o texto e sua forma de escrever, volto mais vezes para ler mais e quando escrever um livro eu vou querer, já sinto que será uma história viciante ^^
    Parabéns!

    http:// faroestemanolo.com.br /

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  4. Adorei o texto! Você escreve muito bem! ^^
    Já pensou em lançar um livro?
    Se sim e já fez, me diga que vou querer! Se não, pense sobre! ^^
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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  5. Que texto maravilhoso! Realmente lembra algumas situações do dia a dia pela qual passamos, e você escreve muito bem, parabéns <3

    http://sweetpoisonteen.blogspot.com/

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