A realidade parece um sonho, mas não é tão bom


Debrucei-me sobre o parapeito da janela, entre a cortina de linho branco perfeitamente passada e o mundo lá fora, que me parecia incrivelmente desarrumado – se comparado ao meu quarto, obviamente.
Ao passar pela janela te vi sorri ao me acenar, sua roupa, colorida e esvoaçante, dançava no ritmo que tinha a brisa lá fora. Acho que sorri meio sem querer também; de qualquer forma, te ver sorrir sempre me fazia sorrir. Vi você então, caminhando com os passinhos rápidos de quem tem pressa, te acompanhei apoiado no parapeito da janela até tua imagem sumir de minhas vistas, quando tu dobraste a esquina. Peguei meu maço de cigarros surrado no bolso do jeans e acendi um – depois de várias tentativas. A brisa estava forte e bastante fria, entrava pelos pontos largos do meu suéter.  Terminei o cigarro logo, dando tragadas rápidas que me deixaram um gosto ruim na boca. Tentei aquecer uma mão com a outra, em vão. Finalmente fechei a janela. Atirei-me por sobre a cama. Os lençóis estavam perfeitamente alinhados até então. Tudo parecia ter e estar em seu lugar correto. Minha mente era uma teia de pensamentos e dúvidas. Dizer que o que eu sentia era indescritível soaria tão clichê quanto gostar de Beatles. Mas eu gostava de Beatles.
Imaginei a ti, depois que viraste a esquina. Perninhas finas, rápidas, tão bonitas. Você na fila para comprar o bilhete do trem, arrumando o cabelo. Você sorrindo e dizendo “Me vê duas, integração” e depois pegando o troco e agradecendo com o mesmo sorriso. Descendo as escadas para a plataforma e parando ali, acendendo um cigarro talvez, tragando a fumaça lenta e descontraidamente. Fiquei pensando se hoje, que é um dia de semana ainda, teriam muitas pessoas ali. Será que eram jovens? Bonitas? Escutavam Beatles também? Ou talvez Ramones? Será que alguma delas iria te olhar por um tempo, e quando finalmente tomasse coragem ia sentar-se ao teu lado e com a expressão decorada falar “Com licença, pode me dizer que horas são?”.
 As imagens iam-se formando mais rapidamente do que seria possível para a escrita acompanhar. E a mente é o nosso monstrinho de estimação, o qual alimentamos diária e continuamente. Mas a parte mais difícil de ver passar, sem qualquer consentimento meu, foi a parte que tu chegaste ao teu destino. Veja bem: não sei se alguém jovem, bonito e fã de Beatles sentou ao teu lado. Ao menos sei se tu chegaste a achar um lugar dentro do trem, porque hoje é dia de semana. Mas eu sei que, quando tu chegou lá, tinham dois braços abertos esperando por um abraço teu. E o abraço que era meu, agora é dele. Vocês saem juntos dali, braços dados, rindo, conversando sobre o quanto sentiram saudades um do outro, e como não podem mais deixar que isso aconteça. Vão sentar-se em alguma praça, ele vai perguntar se tu estás com sede, vai te comprar uma cerveja. Eu sei que tu vai querer pagar, eu te conheço. Mas ele paga e pronto. Teus sorrisos são dele agora, os abraços, os carinhos, a saudade é dele também. E ele parece incrivelmente interessante nesses trinta minutos de conversa. Depois vocês vão jantar em algum lugar. Sua comida preferida? Não. Ele te faz experimentar algo novo, e você que não acreditava que poderia ser, descobriu que era muito bom. Vocês parecem tão felizes juntos, assim, sempre rindo. Quando vê que já é tarde diz que vai embora, ele pede e você fica mais um pouquinho, depois ele te leva até o trem. A outra passagem já está comprada, revira a bolsa, não serias tu se não perdesse algo. Tu te sentas no trem – porque agora é tarde e tem lugar – e talvez até apareça algum espertinho para sentar ao teu lado e olhar de relance para as pernas cruzadas, mas tua mente... É dele também. E se perde em todas as coisas que ele te disse, te ensinou ou te mostrou durante todo o dia. Tu quase perde a estação que tens que descer, não é mesmo?
Os lençóis estão revirados por sobre a cama, e eu estou em meio a eles. Olho para o rádio relógio que pisca, são 23h47min. Esfrego os olhos. Não sei se dormi, sonhei ou se fiquei só imaginando mesmo. Ouço o barulho da maçaneta sendo girada. Tu não está tão bonita quanto no começo da tarde, mas continua linda. Agora teus beijos, sorrisos e carinhos tornam a ser meus, mas parecem ter o gosto dele. O cheiro dele. As ideias meio tortas e completamente rebuscadas dele. Tu me olha com uma expressão tão bonita no rosto. Sorri meio tímida, sei lá. E teus lábios começam a se mover. “Tu sabe que hoje eu comi uma comida muito boa? Vou te trazer um dia desses.” E sabe, até a tua voz parece um pouquinho com a dele agora. 

Texto de autoria própria, peço que se feita cópia total ou parcial, que deem os devidos créditos. 

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